Paisagens do cotidiano: uma análise das possíveis medidas de acautelamento no “Evento multicultural Praça República da Bolívia” em Campo Grande/MS/ Everyday life landscapes: an analysis of possible precautionary measures in the "multicultural Event Praça República da Bolívia" in Campo Grande/MS

Jéssica Rabito Chaves, Bruno Silva Ferreira, Margareth Escobar Ribas Lima, Eliane Guaraldo

Abstract


A partir do relato da experiência de um estudo de caso, buscou-se compreender o processo de consolidação de um movimento popular, advindo de uma comunidade específica, transformado em um evento multicultural. Ao longo dos anos, a feira livre Praça Bolívia, Campo Grande/MS, conquistou sua representatividade e contribui continuamente para a reconstrução da memória coletiva urbana. O Brasil é um país de grande diversidade cultural e detentor de uma identidade multiétnica; assim a necessidade de instrumentos de preservação e promoção do patrimônio cultural imaterial é real. è necessário que as políticas públicas possam ir além da conceituação superficial de comunidades heterotópicas de potencial singular. À medida que se identifica que as comunidades não possuem representatividade e tampouco uma legislação que proteja sua diferença étnica, há necessidade de se organizarem de forma democrática e apolítica. Para valorizar sua singularidade a despeito da negação por parte das sociedades culturalmente estruturadas, é necessário indicar caminhos potenciais de fortalecimento. O evento das feiras livres, para além da sua função original de mero suporte de atividades comerciais, se configura como um meio legítimo de expressão da cultura popular. Neste artigo o evento da feira livre foi identificado e analisado como expressão de identidade cultural que existe na praça da Bolívia há mais de 10 anos e hoje representa um espaço de resistência e de intercâmbio de valores identitários. Ao extrapolar as fronteiras nacionais, resgata memórias afetivas do ser migrante em busca de visibilidade, representatividade e preservação de sua cultura. O perfil gregário e acolhedor característico desse grupo eleva seu potencial de comunicação. Este espaço, antes uma simples praça de bairro, transformou-se em um lugar que acolhe tanto manifestações da cultura folclórica andina, que marcaram sua origem, quanto outras excluídas socialmente e atraídas por aquela presença. Espaço de manifestação popular múltipla, outros grupos se sentem à vontade para representar sua individualidade étnica, contribuindo para o fortalecimento das experiências que integram o viver urbano na cidade de Campo Grande. Neste trabalho, foram reunidos alguns registros significativos da presença de parte da população boliviana na capital, identificados no acervo documental municipal ARCA/MS e atividades de campo. Com suporte conceitual da geografia humana e cultural e da fenomenologia da migração, buscou-se identificar a caracterização identitária atribuída pela apropriação de grupos comunitários em uma praça, conferindo valor de patrimônio cultural a uma paisagem do cotidiano. A discussão pode ser ampliada para outros contextos e movimentos espontâneos de manifestação cultural em espaços livres, suscitando reflexões sobre a necessidade de medidas de acautelamento para a proteção destes bens pertencentes ao nosso patrimônio cultural.

 


Keywords


paisagens de inclusão, paisagem etnográfica, patrimônio cultural imaterial, políticas culturais, chancela da paisagem.

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DOI: https://doi.org/10.34117/bjdv7n7-310

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