Ecologia de saberes e perspectivismo: epistemologias decoloniais / Ecology of knowledge and perspectivism: decolonial epistemologies

Iziquel Antônio Radvanskei, Maria dos Remédios Lima Silva

Abstract


Esse trabalho apresenta distinções entre a filosofia do eixo ocidental e as Epistemologias do Sul. As publicações reunidas em torno das temáticas epistemológicas do Sul tratam do “conjunto de intervenções epistemológicas que denunciam a supressão dos saberes levada a cabo, ao longo dos últimos séculos, pela norma epistemológica dominante". Esses saberes têm estabelecido rupturas e reflexões que intensificam o diálogo horizontal entre os conhecimentos identificados como eixo ocidental do “norte” e as Epistemologias do Sul. Nesse sentido, um impasse importante com aqueles que pretendem reproduzir essa experiência ética-ontológica-epistemológica, ao pressupor não somente uma, mas várias epistemologias. Partindo do entendimento que "epistemologia é toda a noção ou ideia, refletida ou não, sobre as condições do que conta como conhecimento válido", entendemos esse impasse consiste em, primeiro: a ruptura e crítica aos regimes únicos de referências; segundo: a fragmentação da ciência em diversas escolas de pensamentos e métodos diferenciados; e terceiro: talvez o mais importante acerca da epistemologia cravada, a partir dos gregos e da filosofia europeia, que hoje são desterritorializações. Assim, nesse ensaio utilizamos a metodologia qualitativa documental, e como método de interpretação, a hermenêutica de Gadamer. Autores como: Quijano, Grosfoguel, Arendt, Buck-Morss, Césaire, Chakrabarty, Deleuze e Guattari, Descola, Fanon, Gadamer, Mbembe, Viveiros de Castro, entre outros, nortearam as discussões aqui mencionadas. Para tanto, ressaltou-se ainda o conceito de Perspectivismo e o conceito de ‘Viveiros’, como uma importante ecologia de saberes que descortina possibilidades de reconhecimento para uma miríade de conhecimentos e cosmologias invisíveis para as epistemologias dominantes. O objetivo do artigo é ampliar as discussões das Epistemologias do Sul, bem como discutir novas possibilidades de enfrentamento da colonialidade, em um plano decolonial. Propomos uma fuga do reducionismo, no qual um lado da linha tem as prerrogativas de verdades epistemológicas que pressupõem que só o ocidente detém a invenção do direito das gentes, ou que apenas um lado conseguiu edificar uma sociedade civil das nações, e só ali existiu a ideia de ser humano, com plenos direitos. O resto é uma figura da dissemelhança, do negativo. A tarefa é processual e árdua.


Keywords


Epistemologia, Colonialidade, Saberes, Identidade.

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DOI: https://doi.org/10.34117/bjdv6n10-486

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