Perfil sociodemográfico e obstétrico de mulheres vítimas de violência obstétrica no médio norte Matogrossense / Sociodemographic and obstetric profile of women victims of obstetric violence in the middle north Matogrossense

Maria Clara Pereira Leite, Daniela do Carmo Oliveira Mendes, Priscila Aguiar Mendes

Abstract


A violência obstétrica no Brasil configura-se como uma das principais reivindicações em busca de uma assistência ao parto qualificada e humanizada, pois além de infligir os direitos e o protagonismo de mulheres, pode ser prejudicial à saúde do binômio, elevando os índices de morbimortalidade materna-infantil. Objetivou-se descrever o perfil sociodemográfico e obstétrico de mulheres vítimas de violência obstétrica no médio norte Matogrossense. Trata-se de uma pesquisa descritiva e transversal realizada com 60 mulheres vítimas de violência obstétrica, que vivenciaram o parto em hospitais públicos e privados de janeiro a junho de 2019. Utilizou-se entrevista fechada e a análise estatística descritiva de variáveis ligadas ao perfil sociodemográfico e obstétrico. A maior parte das participantes possuía entre 18 a 24 anos, ensino médio incompleto, de um a três filhos, eram casadas, do lar e católicas. A maioria se autodeclarou de cor parda, eram residentes do município a mais de um ano, em casa própria, com renda familiar de um a três salários mínimos. As mulheres foram, majoritariamente, submetidas ao parto cesáreo em hospitais conveniados à rede pública de saúde e afirmaram que médicos e enfermeiros cometeram a violência obstétrica. Observou-se a inexistência de medidas de enfrentamento quanto a violência sofrida. Entre as participantes, 50% expôs inicialmente que não a sofreram, mas quando questionadas sobre cuidados e procedimentos vivenciados no parto, indicaram a ocorrência de práticas violentas, inadequadas ou desnecessárias. Outras 30% não souberam informar se haviam sofrido ou não a violência. Além da alta prevalência da cesariana, a principal prática inadequada evidenciada foi a ausência do acompanhante no parto. É necessário a elaboração de estratégias de enfrentamento a violência obstétrica, de sua invisibilidade por mulheres e da soberania médico-hospitalar.


Keywords


Saúde da Mulher, Violência, Obstetrícia.

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DOI: https://doi.org/10.34117/bjdv6n10-229

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