A contextualização e problematização do conhecimento científico no processo de ensino-aprendizagem para a formação do engenheiro / Contextualization and problematization of scientific knowledge in the teaching-learning process for engineer training

Fernanda Fonseca, Ricardo Deckmann Zanardini, Ederson Cichaczewski

Abstract


O objetivo da pesquisa aqui descrita é compreender como a contextualização e a problematização dos conhecimentos podem contribuir para o processo de formação do engenheiro. Atualmente, os cursos de graduação em engenharia brasileiros têm suas disciplinas trabalhadas, de forma geral, seguindo o modelo convencional de ensino. Nesse modelo, o ensino deixa a subjetividade de lado, e as relações interpessoais e interesses dos alunos são tratados como inconvenientes para o processo de ensino-aprendizagem (SUHR; SILVA, 2012). O estudante atua de forma passiva, como um receptor de conhecimentos transmitidos, decorando e reproduzindo mecanicamente as técnicas, e pormenorizando as disciplinas das quais não compreende o caráter formativo nem a relevância no seu desenvolvimento para atuação profissional (FONSECA, 2017, p. 22). Os estudantes não conseguem visualizar as conexões dos conteúdos trabalhados nas diferentes disciplinas com situações reais e mesmo entre as diversas disciplinas que compõe a grade curricular do curso. Essa perspectiva de ensino se opõe às necessidades da sociedade atual, às exigências do mercado de trabalho, e das atribuições de uma instituição de ensino superior. Segundo CNS/CES 1.362/2001 (BRASIL, 2002), o ensino de engenharia demanda um amplo conhecimento científico e tecnológico, mas vem exigindo cada vez mais a capacidade de coordenação e gestão de informações e processos, assim como a interação dos profissionais da engenharia de forma coletiva e entre diferentes áreas. O cenário mundial tem necessitado de especialistas da área que apresentem uma visão ampla dos problemas para buscar as melhores soluções, consciente dos efeitos decorrentes dessas decisões. Por isso, é necessário que os cursos de engenharia preparem um sujeito crítico e ético, que concebe os aspectos políticos, econômicos, sociais, ambientais e culturais visando atender às demandas da sociedade (BRASIL, 2002). Outro fator importante é o perfil discente desses cursos, composto majoritariamente por adultos, cuja aprendizagem é concebida mais como meio que como finalidade (MARTINS, 2003), exigindo que as experiências de aprendizagem sejam úteis para resolver problemas cotidianos, para enfrentar mudanças, ou para gerar mudanças em sua vida. A contextualização e a problematização são aqui apresentadas como fatores desencadeadores dessa construção do conhecimento. Para Ricardo (2017), o conceito de contextualização pode ser entendido como: elemento motivador atrelado à realidade e aos conhecimentos prévios do estudante; uma conjuntura favorável à interdisciplinariedade; e como transposição didática do conhecimento científico em conhecimento escolar. A transposição didática transforma o conhecimento científico, o que acaba desfigurando os conteúdos científicos e desvinculando esses conhecimentos das relações subjetivas e das teorias que influenciam o cientista (RICARDO, 2017). Esses conceitos científicos são então organizados em textos e assumidos como independentes, encadeados em uma sequência conforme a estrutura curricular e ao tempo letivo. Por esse motivo, buscamos apresentar os conhecimentos de forma contextualizada, e também problematizando e reconectando esses saberes por meio da Aprendizagem Baseada em Problemas (Problem Based Learnig – PBL). Inicialmente, essa pesquisa é qualitativa e descritiva, pois procura “caracterizar e identificar opiniões, atitudes [...] de um determinado grupo ou população” (CASARIN; CASARIN, 2012, p.41) diante de uma situação, cujos dados para análise foram coletados de registros de interações via Ambiente Virtual entre alunos e professor tutor, em que os alunos apresentam suas percepções sobre a apresentação contextualizada das teorias estudadas, na disciplina de Pré-Cálculo.  Por meio da Análise Textual Discursiva, esses registros foram classificados inicialmente de acordo com o assunto e, posteriormente, fragmentados e reclassificados segundo a avaliação da metodologia aplicada. Ao analisarmos os conjuntos de fragmentos, observamos nesses registros que, tanto a motivação dos estudantes na aprendizagem das mesmas foi intensificada, o que desencadeou uma ação ativa na busca autônoma pelo aprofundamento nos temas por parte dos discentes, como também percebemos indícios de uma melhor compreensão da finalidade e importância do conhecimento matemáticos para sua formação. Em uma segunda etapa, em desenvolvimento, investigaremos as contribuições da contextualização e a problematização dos saberes por meio da PBL. Essa metodologia baseia-se no estudo de problemas propostos pelo professor que permitem que o aluno estude a aplicação de determinados conhecimentos (MORÁN, 2015). Propomos o desenvolvimento de um aplicativo para celular de Pesquisa Operacional, para o qual os alunos necessitarão utilizar vários conhecimentos (como técnicas e modelos característicos da Pesquisa Operacional, linguagens de Programação, Métodos Numéricos para resolução de sistemas matemáticos, por exemplo) adquiridos em diferentes disciplinas que integram a grade curricular, que resultará em um produto que para análise de situações reais que auxilie o usuário nas tomadas de decisões. Para isso, o aluno necessitará compreender as principais situações de aplicação desses conhecimentos, permitindo que o aplicativo possa ser utilizado em uma ampla gama de problemas. Nessa metodologia, o professor assume um papel diferente do convencional, atuando como um facilitador e mediador do processo ensino-aprendizagem (MORÁN, 2015. E o aluno, trabalhando em prol da resolução de um problema, é estimulado a conjecturar e desenvolver soluções baseado nos meios de informações, conceitos e habilidades apreendidas no curso e fora dele. O PBL permite aos alunos vivenciarem a experiência de pesquisa e integração entre as unidades curriculares, como também, a prática dos conteúdos aprendidos de modo exploratório (MORÁN, 2015). Nesta fase da pesquisa, questionários investigativos estão sendo aplicados com os quatro estudantes envolvidos em três momentos diferentes no projeto para acompanhar a aprendizagem. Assim como os registros das interações via Ambiente Virtual, esses questionários serão analisados a partir da perspectiva da Análise Textual Discursiva, porque esse método de análise propicia uma reconstrução e compreensão das diversas particularidades do fenômeno investigado, assim como permite a emergência do novo (MORAES; GALIAZZI, 2006). Ao final, pretendemos compreender como a contextualização e a problematização dos conhecimentos pode ser trabalhada e como promove o desenvolvimento de um profissional engenheiro de acordo com as necessidades atuais.


Keywords


Formação do engenheiro, Contextualização, Problematização, Educação em engenharia.

References


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DOI: https://doi.org/10.34117/bjdv6n10-081

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