Paradoxo do mundo digital: desafios para pensar a saúde mental dos influenciadores digitais / Paradox of the digital world: challenges to think about the mental health of digital influencers

Rayane Marques da Costa, Maria Luiza de Barba, Luise Lira Barros Pinto, Laís de Pinho Barroso Bussardes, Fernanda da Costa Negraes, Thaís Pinto Coelho de Andrade, Monique Silveira Oliveira, Geovanna de Azevedo Gonçalves

Abstract


Introdução: A criação de plataformas ou ambientes virtuais de fácil acesso para desenvolvimento e compartilhamento de conteúdos culminou em uma transformação na utilização da Internet, em que os usuários passaram de passivos a ativos, tornando-se por vezes não só protagonistas, mas também produtores dos conteúdos. Com o surgimento dos Influenciadores Digitais e do Marketing de Influência, surgiu, também, a economia criativa, na qual o influenciador precisa estar sempre criando novos conteúdos e ideias para manter a sua gama de seguidores, vivendo com a insegurança de não conseguir prever o que terá ou não sucesso. Por conseguinte, estes profissionais estendem sua jornada de trabalho e aumentam o sentimento de competitividade, piorando as relações de trabalho e afetando com o passar do tempo a sua qualidade de vida. Nesse cenário, é comum o deterioramento da saúde mental, gerando doenças como ansiedade, depressão, transtorno de imagem e síndrome de Burnout. Este estudo buscou identificar os fatores que contribuem para o adoecimento em saúde mental dos Influenciadores Digitais no que concerne a sua prática profissional. Foi realizado um estudo documental exploratório, transversal, com abordagem qualitativa, a partir de dados secundários de domínio público, como reportagens e entrevistas publicadas na Internet. A pesquisa na base de dados foi realizada pelo website Google, nos meses de abril e maio de 2020. Os dados foram analisados por seu conteúdo e categorizados por núcleos temáticos: depressão; ansiedade; transtornos de imagem; e Síndrome de Burnout. Dentre as temáticas identificadas na amostra, a mais prevalente foi depressão (83%), seguida por ansiedade (33%). Os principais motivos apontados foram a cobrança excessiva por produtividade, as longas jornadas de trabalho, a não separação dos momentos de trabalho e lazer, a insegurança quanto a aceitação do conteúdo produzido e os comentários depreciativos. A soma da excessiva exposição sem nenhum suporte de proteção mental e financeira, leva essa classe de trabalhadores ao desenvolvimento de transtornos mentais, sendo os episódios depressivos de grande recorrência. Poucas pessoas compreendem que o trabalho de Influenciador Digital traz desafios que podem comprometer a saúde, resultando em um esgotamento que não será facilmente superado se a pessoa não estiver bem preparada. Nas redes sociais, milhares de Influenciadores Digitais retratam sua vida como um exemplo a ser seguido e desejado por quem os acompanha. A incorporação do padrão do corpo “ideal” é capaz de modificar comportamentos e atitudes pessoais, sendo influenciado principalmente pelas ideias socioculturais, mídias e redes sociais. A imagem corporal é moldada artificialmente para ser admirada, e o sentimento de incapacidade de atingir esse padrão retorna em forma de angústia e depressão. A consequente falta de descanso e lazer também resultante desse processo pode ser relacionada diretamente com o desenvolvimento da Síndrome de Burnout. Percebe-se, portanto, um nexo causal entre o trabalho e os agravos apresentados pelos Influenciadores Digitais. Dessa forma, sugere-se que novos estudos sejam realizados, para que se possa aprofundar as discussões acerca do tema e das medidas de prevenção que possam ser implementadas.

 


Keywords


Influenciador Digital, Saúde Mental, Saúde do Trabalhador.

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DOI: https://doi.org/10.34119/bjhrv4n2-145

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