Relato de caso: herpesvírus canino tipo 1 em ninhada sem raça definida / case report: canine herpesvirus type 1 in dog puppies without defined breed

Luiza Isaia de Freitas, Thais Ito Isaia Lanzanova

Resumo


O Herpesvirus canino do tipo 1 (CHV-1 ou HVC-1), vírus DNA, fita dupla, envelopado, pertencente à família Herpesviridae, subfamília Alphaherpesvirus, gênero Varicellovirus. Em 1965, CARMICHAEL et al. descreveram o vírus como causador de doença fatal hemorrágica em neonatos. O CHV-1 possui distribuição mundial, há relatos que sua soroprevalência pode chegar a 80% em alguns países. O vírus pode estar presente em cães saudáveis e assintomáticos, ou associado a diferentes manifestações clínicas, desde lesões genitais, doença respiratória, infecções oculares, infertilidade, abortos e a mortalidade neonatal. Estudos recentes comprovam a circulação do patógeno no Brasil, principalmente nas regiões Sudeste e Sul, levando a doença sistêmica severa, ocasionando a mortalidade de neonatos contaminados. A prevalência do patógeno no Brasil é difícil de ser calculada devido ao diagnóstico ser pouco determinado, principalmente em animais adultos onde o vírus pode ficar latente (levando ao falso negativo na maioria dos testes), sendo mais citado devido as necrópsias realizadas nos neonatos. Em filhotes, após o aparecimento dos sinais clínicos o animal vai a óbito em 24 a 72 horas, e os que sobrevivem a infecção podem apresentar várias sequelas oculares, respiratórias e neurológicas. Este relato foi realizado em caráter qualitativo, natureza aplicada e objetivo exploratório. Os objetivos em geral foram averiguar a velocidade de evolução do quadro, taxas de mortalidade e morbidade e em específico, relatar a maior velocidade de evolução da patogênese ao óbito e o não acometimento de pelo menos metade dos filhotes a forma clínica da doença. A ninhada objeto deste estudo era composta por 8 filhotes sem raça definida, 4 machos e 4 fêmeas, onde 100% dos filhotes machos (50% da ninhada) foram acometidos pela doença fatalmente, em 12 a 14 horas após o início dos sinais clínicos. Os sinais clínicos apresentados foram condizentes com os já relatados, tais como: anorexia, pápulas no abdômen, eritema, edemas subcutâneos, dor abdominal, respiração agônica, mucosas pálidas, gemidos agudos, prostração, choro contínuo, dispneia, sinais nervosos e fezes pastosas de coloração amarelo-acinzentado. A velocidade de evolução ao óbito dos filhotes foi 100% mais veloz que as citadas na literatura existente. Os demais filhotes, assim como a mãe, são portadores assintomáticos do vírus e não apresentaram sinais clínicos. Para o diagnóstico, pelo menos um dos filhotes foi submetido ao procedimento de necrópsia, onde foram observadas lesões anatomopatológicas típicas da doença, além do resultado positivo em amostra de tecido levado para reação em cadeia da polimerase- PCR. Devido à rapidez na evolução do quadro ao óbito de 100% dos filhotes que apresentaram sinais clínicos e o não acometimento de metade da ninhada, fez-se importante relatar o caso. Sendo assim, ao observarmos, percebemos que a patogênese do HVC-1 pode ser mais veloz que a relatada, devendo este dado ser levado em consideração para o correto diagnóstico.

Ademais, apenas os filhotes machos foram atingidos pela forma clínica e fatal da doença, permanecendo as fêmeas latentes, assim como a mãe, até a atualidade. Tal dado não foi levado em consideração em demais estudos, podendo o sexo dos filhotes ter ou não relação com maior disposição à forma clinica ou assintomática da doença.


Palavras-chave


Herpesvírus Canino Tipo 1, HVC-1, Neonatos, Latência, Óbito.

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DOI: https://doi.org/10.34188/bjaerv4n1-002

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